July 2012
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rio de janeiro, 18 de julho de 2012
Maurício,
A primeira coisa que você me disse ao ver o caderninho verde com o lápis igualmente diminuto foi: que lápis pequeno.
Meses depois, no bar, quando você sacou o mesmo combo caderninho+lápis da mochila, a primeira coisa que eu disse foi: que lápis sem ponta. Ao que você respondeu: é sem ponta porque ele é pequeno e nenhum apontador consegue apontar. A partir daí, tivemos uma longa e...
paraty, 8 de julho de 2012
À Ana Cristina César:
Hoje aqui tudo voltou a ficar vazio: as ruas, a tenda, os alambiques. E veio um frio, Ana, de fazer a gente bater o queixo (e eu que esperava um veranico em Trindade), sobretudo na beira do rio, onde os peixes escorregam da superfície da água (flop). Eles me fizeram pensar em você nua, ensaboada, passando pela sala, correndo pela sala nua, escorregando das mãos de sua mãe,...
June 2012
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rio de janeiro, 28 de junho de 2012
Monike,
Hoje pensei muito em Angkor Wat. O templo foi construído, li em algum lugar, por um rei que atacou outro rei quando este passeava em seu elefante. Um assassino usurpador, como naqueles dramalhões medievais. Mas eu mataria um rei, digo, vale a pena, não?, matar um rei para fazer algo assim.
Toquei no assunto para fazer uma pergunta: você ainda anima aquela viagem ao sudeste asiático?...
rio de janeiro, 24 de junho de 2012
Prezado Kremlin,
Venho por meio desta manifestar meu interesse em comprar a múmia do Vladimir.
Soube por amigos em comum que vocês querem vendê-lo. É caro manter o velho líder preservado, eu imagino. Me disseram que o Fidel Castro quis comprá-lo. Não vendam, por dois motivos: o Fidel está velho, ele mesmo virou uma múmia. Há o risco de confundirem os dois e botarem o russo para discursar. E Cuba...
rio de janeiro, 24 de junho de 2012
Caros pombos da Cinelândia,
Vocês já notaram como alguns de vocês são meio anabolizados?
Pois é. Até hoje não sei se é uma variação genética ou alguma doença tenebrosa da qual vocês são portadores; mas sempre penso no pior. De todo modo, atravesso a rua quando vejo um pombo grande, inchado por debaixo das penas, cinzento ou malhado, que anda meio se sacudindo. Horror pior só quando vejo um de...
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rio de janeiro, 21 de junho de 2012
Olha, Martha:
Eu acho meio bonito, ainda que constrangedor, esse interesse despudorado do velho pela gente do elevador. O velho ficou não só invisível, mas também encolheu, como prova a coluna que vai se dobrando, se dobrando. Ele só existe no cheiro de sabonete e na dor nas falanges. Eu gosto dessas coisas neles. Retrato de velho em preto e branco, você já prestou atenção? Parece uma escultura...
rio de janeiro, 18 de junho de 2012
E.,
Saí do nosso último encontro com dor de cabeça. Foi a primeira vez que o papo me deixou perturbado, com sequelas para o dia seguinte. Isso é bom ou ruim? Você não vai responder esta, eu sei, que você não é de responder. Nunca. Fico um pouco irritado, mas não leve a mal: não é pessoal, como quando eu achei que você era crente (em sonho).
Eu desconfio de você, você disse.
Quando você dá...
rio de janeiro, 19 de junho de 2012
Oi.
Eu tinha te prometido um trecho preferido de O Som e a Fúria, do velho William. Sim, sim: acabei finalmente. Por isso resolvi escrever esta, para contar. Ninguém atravessa um rubicão daqueles para guardar segredo. Aquele amontoado de fluxos de consciência - o Faulkner tenta reproduzir o pensamento da gente - parecem intransponíveis. Mas o certo é chegar perto de um leão literário desses como...
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rio de janeiro, 18 de junho de 2012
Maurício,
Em sua defesa, preciso contar que…adoro a “fossa rasteira”. O exu de Goiás me tomou de assalto há muitos anos. Mais precisamente, em 1990 (você, se não me engano, nem era nascido…), quando Chitãozinho e Xororó inundaram o país com Nuvem de Lágrimas. Um dueto - trio? - com Fafá de Belém, o que conferia uma dramaticidade ainda maior à canção. Ninguém me segurava....
rio de janeiro, 16 de junho de 2012
resposta a esta carta
Marthíssima,
Acho que entendi: São Conrrado não é um erro, mas um ato de desobediência civil. Faz sentido. A flor do lácio é cretina mesmo, ela merece.
Mas quero falar de outro tema: agora eu dei para cantar os maiores hits de Zezé di Camargo & Luciano. Tudo bem, quando era na intimidade do lar. Mesmo quando era gritaria de vizinho no chuveiro (o vizinho escandaloso...
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rio de janeiro, 5 de junho de 2012
resposta a esta carta
Caro Maurício,
Você me diz que, na Bolívia, os tomates são mais tenros e vermelhos - e isso me deixa muito desconfortável. Não por inveja dos hermanos cocaineiros. Mas pela palavra “tenro”. Me incomodam essas palavras: “tenro”, “melro”, “guelra”, “honrado”, “enredo”. Esse “r” que se faz de...
rio de janeiro, 3 de junho de 2012
Laura,
Eu não me lembrava que você já tinha desenhado a minha bunda. Você não deve se lembrar. Foi naquele caderninho verde que você trouxe de outro país e veio com um lápis igualmente diminuto, que por isso nunca pôde ser apontado (nenhum apontador tem a embocadura que ele requer). Você me deu para eu anotar minhas ideias - mas a maioria é ruim.
Ele andou perdido, só fui encontrá-lo esta...
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rio de janeiro, 6 de junho de 2012 (de M. para M.)
reposta a esta carta
Martha, querida,
Você desculpe a demora desta. Andei ocupado com aquele problema de saúde na família, você sabe.
Nunca confio no fabricante, e essa desconfiança antecede o rato do baconzitos (aquele). É sempre uma lata de alguma cerveja vagabunda que vem pela metade ou sorvete chicabon que vem azedo. Já me aconteceu algumas vezes. O fabricante me odeia e arma contra mim em...
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rio de janeiro, 31 de maio de 2012 (de M. para M.)
(De M. para M. são cartas trocadas entre mim e a amiga Martha Mendonça)
Maurício,
Esse mundo, diria o filósofo, é muito louco. Acordei cedo - não que isso seja raro - e, enquanto esperava as crianças acabarem de se arrumar para a escola, peguei a caixinha de ameixas pretas secas na despensa. Compro sempre essas ameixas como compensação gastrointestinal para comer maçãs, que adoro - e espero...
May 2012
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rio de janeiro, 31 de maio de 2012
Claudia, cara,
Você já operou o fogão desta casa com mais destreza. Quibe de forno sem carne? Achei mesmo que eu ia morrer comendo aquela coisa encorpada de trigo somente. Sorte a minha apreciar o tempero árabe que você conhece - as especiarias (não sei quais) que você trouxe de Nova Iguaçu merecem mesmo um prêmio. Mas a carne fez falta. Da próxima vez, também vamos evitar o requeijão light, que...
paris, 6 de setembro de 1925 (de William Faulkner...
“Acabo de escrever uma coisa tão bela que estou prestes a explodir - duas mil palavras sobre os jardins do Luxemburgo e a morte. Tem um enredo ralo, sobre uma jovem, e é poesia mas escrita em forma de prosa. Trabalhei nela dois dias inteiros e cada palavra é perfeita. Mal dormi durante duas noites, pensando no texto, comparando palavras, aceitando-as e rejeitando-as, depois mudando de novo....
paris, 18 de junho de 1949 (de Paulo Mendes Campos...
“É isso mesmo, Lara. Mil vezes desculpa pelo atraso desta. Foi por simples deferência. Não queria mandar para você uma cartinha ou cartão-postal, queria escrever longo, explicado e amigo. Há um mês exatamente que cheguei a Paris, parece que estou aqui há muitos anos, contudo, o tempo passou voando, não houve tempo, houve Paris. Há mais de 20 dias, me lembro, eu já estava na meia página de...
rio de janeiro, 26 de maio de 2012
Querida insulana,
Eu não sabia que as baleias respiravam. Isso meu deu um ânimo para ir te visitar aí na Argentina nas minhas próximas vacaciones. Descobri ao ler um guia - aquele que inclui o Uruguai, como se fosse um apêndice do seu novo país. Acampa-se em um dos parques da Patagônia só por isso: à noite muita gente ouve o canto e a respiração delas. Sempre achei que o canto da baleia tinha um...
estas cartas
Caríssimos,
este blog tem uma ideia que não sei se vai funcionar: escrever cartas para pessoas - reais ou fictícias. Talvez não dê certo (sou o rei da procrastinação e da preguiça). Talvez dê. E isso nós vamos ver ao longo do tempo, neste work in progress.
Na maioria das vezes eu não vou ter assunto, é verdade. Prometo não transformar essa falta em assunto.
Não sei onde isso vai dar, se isso...