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rio de janeiro, 5 de junho de 2012

resposta a esta carta

Caro Maurício,

Você me diz que, na Bolívia, os tomates são mais tenros e vermelhos - e isso me deixa muito desconfortável. Não por inveja dos hermanos cocaineiros. Mas pela palavra “tenro”. Me incomodam essas palavras: “tenro”, “melro”, “guelra”, “honrado”, “enredo”. Esse “r” que se faz de brando, mas é forte. Ou seria o contrário? 

Uma celebridade do Twitter, com milhões de seguidores, sempre escreve que está engarrafado em São “Conrrado”. Que burro, sempre pensei - invejando alguém tão idiota com tanto seguidores, certamente. Depois tive pena. E, recentemente, passei a ter orgulho do cara, como se aquele “r” dobrado fosse uma bandeira, um manifesto contra as pegadinhas da nossa língua.  

Crianças em fase de alfabetização sofrem muito. Minha filha sempre escrevia “tumati”. Eu a corrigia. “Ué, mãe, mas a gente não fala assim?”. Tadinha. Muito cedo esses pequenos aprendem que nem tudo é o que parece. Exatamente como os tomates, que são tão simples, redondos, monocromáticos, mas na verdade são de extrema complexidade. 

O mundo não é o que parece, já disse o poeta. E sempre há uma pedra do meio do caminho. 

Beijos,

Martha

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rio de janeiro, 3 de junho de 2012

Laura,

Eu não me lembrava que você já tinha desenhado a minha bunda. Você não deve se lembrar. Foi naquele caderninho verde que você trouxe de outro país e veio com um lápis igualmente diminuto, que por isso nunca pôde ser apontado (nenhum apontador tem a embocadura que ele requer). Você me deu para eu anotar minhas ideias - mas a maioria é ruim.

Ele andou perdido, só fui encontrá-lo esta semana. Abri no ônibus na página exata e ri alto. É assim: tem uma bunda desenhada, com algo escrito na nádega esquerda. Uma seta puxa para umas aspas que dizem: “Escrever no meu caderno verde é como escrever na minha nádega esquerda, de tão íntimo.” Mais abaixo, outra seta puxa para uma anotação, feita por você: “Minha nádega desenhada pela Laura.” Não tem data. Também não me lembro de ter dito isso.

Estávamos sóbrios?

Pergunto porque na página atrás da bunda você anotou ainda: I’ve got a soul aqui nesta mesa de bar. É a sua caligrafia, Laura. De qualquer forma, parece claro que eu me senti meio devassado com essa intrusão. O caderno tem as ideias e anotações as mais idiotas. Na página atrás da bunda, está uma definição de Oswald de Andrade para Benito Mussolini. É bem sucinta: macarronada com sangue.

Ainda perto, notas minhas: “Disse que eu era um niilistazinho de merda.” Você me acha um niilistazinho de merda? Acho possível. Especialmente se foi naquela época que você me odiou: eu tinha dito que você fazia gestos estranhos enquanto falava. E que era meio estrábica. Você achou humilhante, me senti um lixo.

Estou folheando o caderno enquanto te escrevo. Achei algo que não lembro para quem era, mas pode bem ser você, olha:

“A mente dela era alada. Por isso batia o pé no canto das portas e perdia objetos nos próprios bolsos.”

Até,

M.

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rio de janeiro, 6 de junho de 2012 (de M. para M.)

reposta a esta carta

Martha, querida,

Você desculpe a demora desta. Andei ocupado com aquele problema de saúde na família, você sabe.

Nunca confio no fabricante, e essa desconfiança antecede o rato do baconzitos (aquele). É sempre uma lata de alguma cerveja vagabunda que vem pela metade ou sorvete chicabon que vem azedo. Já me aconteceu algumas vezes. O fabricante me odeia e arma contra mim em segredo - é por isso que um defeito desses só acontece nos fins de semana, quando mais quero a cerveja ou o chicabon. L’énemie c’est la bourgeosie, ouvi em algum filme francês: a burguesia é nossa inimiga. Por isso, meu ceticismo se estende ao pão light e ao biscoito sem gordura trans. Só confio no arroz integral - e mesmo assim…

Também tive uma angústia existencial quando li a do tomate. Interessante isso. Sabe que na Bolívia eles são mais tenros e mais vermelhos? Experimentei alguns na casa de umas índias, todas com os dentes negros. Tento até hoje não pensar na fauna que vivia naquelas bocas pré-colombianas. Elas me adoravam, por causa dos papos longos que batíamos na cozinha. Eu, que não falo uma palavra de espanhol. Até me estalavam um beijo na bochecha, e acho que foram as vezes que estive mais perto da cárie.

Mas estou mudando de assunto. É que eu não sei se concordo com essa do tomate. Li a reportagem, ela dizia que o legume tinha mais genes que nós. Sei lá, pensei em Deus escrevendo nosso código genético. E, de repente, o tomate me pareceu um romance chato, prolixo, de linguagem derramada e sintaxe confusa. Coisa de adolescente com pretensões literárias mesmo. Já nós somos concisos e minimalistas, uma coisa simplificada - um conto do Dalton Trevisan.

Ainda bem.

Axé,

Maurício

P.S.: Vi só agora que a tradução no primeiro parágrafo fez esta aqui parecer uma novela da Glória Perez.

Leia a resposta a esta carta aqui

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rio de janeiro, 31 de maio de 2012 (de M. para M.)

(De M. para M. são cartas trocadas entre mim e a amiga Martha Mendonça)
Maurício,
 
Esse mundo, diria o filósofo, é muito louco. Acordei cedo - não que isso seja raro - e, enquanto esperava as crianças acabarem de se arrumar para a escola, peguei a caixinha de ameixas pretas secas na despensa. Compro sempre essas ameixas como compensação gastrointestinal para comer maçãs, que adoro - e espero que você tenha compreendido.
 
Escolho, preferencialmente, as sem caroço, para facilitar. Mas vira e mexe trinco os dentes num caroço clandestino. Dói. Não é um jeito de muito bom de começar os dias, morder com força um caroço às seis da manhã, na inocência de que é possível confiar nos fabricantes.
 
Mas a caixinha que peguei de manhã era, excepcionalmente, de ameixas COM caroço. Estas, pensei, no supermercado, nunca vão me enganar. Saberei de verdade o que estou comendo. Eis que abri a caixinha hoje, junto com um pires, para colocar os caroços. Peguei a primeira, pensando que, com caroço, são mais macias e hidratadas - mais uma vantagem. Levei à boca.
 
Mas não havia caroço algum.
 
Pensei que era só a primeira, ovelha negra (e enrugada) que havia se livrado do caroço. Não. Nenhuma tinha caroço. Comi mais de dez, sem vontade, só pra saber se realmente não havia caroço em nenhuma. Nem vestígio.
 
Isso tudo me deu uma certa insegurança. Que aumentou quando peguei o jornal, para me distrair desses pensamentos nebulosos, e me deparei com a notícia, em primeira página: “Tomate é mais complexo que o ser humano”.
 
Saí de casa me sentindo um lixo.
 
Até mais,
Martha

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rio de janeiro, 31 de maio de 2012

Claudia, cara,

Você já operou o fogão desta casa com mais destreza. Quibe de forno sem carne? Achei mesmo que eu ia morrer comendo aquela coisa encorpada de trigo somente. Sorte a minha apreciar o tempero árabe que você conhece - as especiarias (não sei quais) que você trouxe de Nova Iguaçu merecem mesmo um prêmio. Mas a carne fez falta. Da próxima vez, também vamos evitar o requeijão light, que tal? Enche o bicho de catupiry e estamos combinados.

Beijo,

Maurício

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paris, 6 de setembro de 1925 (de William Faulkner para a sra. M.C. Falkner, sua mãe)

“Acabo de escrever uma coisa tão bela que estou prestes a explodir - duas mil palavras sobre os jardins do Luxemburgo e a morte. Tem um enredo ralo, sobre uma jovem, e é poesia mas escrita em forma de prosa. Trabalhei nela dois dias inteiros e cada palavra é perfeita. Mal dormi durante duas noites, pensando no texto, comparando palavras, aceitando-as e rejeitando-as, depois mudando de novo. Mas agora ele está perfeito - uma joia. Vou guardá-lo por uma semana, depois mostrá-lo a alguém para pedir uma opinião. Então imagino que amanhã vou acordar me sentindo doente. Reação. Mas vale a pena, ter feito uma coisa como essa.

Tenho mais de 20 mil palavras em meu romance, e escrevi um poema tão moderno que eu mesmo não sei o que ele quer dizer.”

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paris, 18 de junho de 1949 (de Paulo Mendes Campos para Otto Lara Resende)

“É isso mesmo, Lara. Mil vezes desculpa pelo atraso desta. Foi por simples deferência. Não queria mandar para você uma cartinha ou cartão-postal, queria escrever longo, explicado e amigo. Há um mês exatamente que cheguei a Paris, parece que estou aqui há muitos anos, contudo, o tempo passou voando, não houve tempo, houve Paris. Há mais de 20 dias, me lembro, eu já estava na meia página de uma carta para V., escrita com lazeres vesperais, e não é que me entra aqui no quarto o Paulo Prates, tive que fazer o anfitrião, oferecendo ao intruso meu Calvados, meu tempo, minha conversa.”

(trecho - publicado na edição 9 da revista Serrote)

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rio de janeiro, 26 de maio de 2012

Querida insulana,

Eu não sabia que as baleias respiravam. Isso meu deu um ânimo para ir te visitar aí na Argentina nas minhas próximas vacaciones. Descobri ao ler um guia - aquele que inclui o Uruguai, como se fosse um apêndice do seu novo país. Acampa-se em um dos parques da Patagônia só por isso: à noite muita gente ouve o canto e a respiração delas. Sempre achei que o canto da baleia tinha um ar tão terrível. Várias vezes imaginei uma cena de filme de terror: o personagem chega em casa numa noite de chuva e encontra um envelope com uma fita. Entra, nem liga a luz e coloca a fita no aparelho de som - lá fora chove mais forte, com trovoadas. Das caixas de som sai um coro de baleias, cantado em águas frias e escuras e profundas de algum oceano no sul do hemisfério sul. Um terror. Em algum momento esse personagem seria morto por um psicopata (a fita era um sinal). Não cheguei a pensar no método que o assassino usaria.

Agora o canto perdeu o elã para mim. Imagina o que é ouvir um animal formidável desses, um milagre da evolução, carregando suas toneladas - e respirando. É de arrepiar. Já li em algum lugar que, acho que entre os hebreus, o homem foi criado pela respiração de Deus, que soprou uma alma para dentro do barro - daí se dizer que a vida é um sopro. Por essas e outras tenho medo que a Patagônia seja bonita de um jeito opressivo. Outro problema vai ser a minha completa falta de perícia para montar uma barraca de camping. Você sabe bem que eu sou inapto para a vida selvagem.

Mas imagina só: o fôlego de uma baleia.

Saudades do tamanho da Ilha do Governador,

Maurício

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estas cartas

Caríssimos,

este blog tem uma ideia que não sei se vai funcionar: escrever cartas para pessoas - reais ou fictícias. Talvez não dê certo (sou o rei da procrastinação e da preguiça). Talvez dê. E isso nós vamos ver ao longo do tempo, neste work in progress.

Na maioria das vezes eu não vou ter assunto, é verdade. Prometo não transformar essa falta em assunto.

Não sei onde isso vai dar, se isso vai dar em algum lugar.

Um abraço.

(queria um pen friend)