rio de janeiro, 5 de junho de 2012
Caro Maurício,
Você me diz que, na Bolívia, os tomates são mais tenros e vermelhos - e isso me deixa muito desconfortável. Não por inveja dos hermanos cocaineiros. Mas pela palavra “tenro”. Me incomodam essas palavras: “tenro”, “melro”, “guelra”, “honrado”, “enredo”. Esse “r” que se faz de brando, mas é forte. Ou seria o contrário?
Uma celebridade do Twitter, com milhões de seguidores, sempre escreve que está engarrafado em São “Conrrado”. Que burro, sempre pensei - invejando alguém tão idiota com tanto seguidores, certamente. Depois tive pena. E, recentemente, passei a ter orgulho do cara, como se aquele “r” dobrado fosse uma bandeira, um manifesto contra as pegadinhas da nossa língua.
Crianças em fase de alfabetização sofrem muito. Minha filha sempre escrevia “tumati”. Eu a corrigia. “Ué, mãe, mas a gente não fala assim?”. Tadinha. Muito cedo esses pequenos aprendem que nem tudo é o que parece. Exatamente como os tomates, que são tão simples, redondos, monocromáticos, mas na verdade são de extrema complexidade.
O mundo não é o que parece, já disse o poeta. E sempre há uma pedra do meio do caminho.
Beijos,
Martha