rio de janeiro, 19 de junho de 2012
Oi.
Eu tinha te prometido um trecho preferido de O Som e a Fúria, do velho William. Sim, sim: acabei finalmente. Por isso resolvi escrever esta, para contar. Ninguém atravessa um rubicão daqueles para guardar segredo. Aquele amontoado de fluxos de consciência - o Faulkner tenta reproduzir o pensamento da gente - parecem intransponíveis. Mas o certo é chegar perto de um leão literário desses como um crente se aproxima do Velho Testamento - com fé. E um pouco de perseverança, claro. A fera não fica dócil até que se chega ao finalzinho. Aí então você percebe o que ele criou e vê que era bom.
Mas escolhi dois trechos. Ei-los:
“Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.”
“‘Eu tenho a lembrança e o sangue do Cordeiro!’ Andava com passos pesados e uniformes de um lado para o outro, sob o papel retorcido e o sino de natal, recurvo, as mãos entrelaçadas nas costas. Era como uma pedra, pequena e gasta, dominada pelas ondas sucessivas de sua voz. Com o corpo parecia alimentar a voz que, feito um súcubo, cravara nele seus dentes.”
Abraço,
Maurício