rio de janeiro, 18 de junho de 2012
E.,
Saí do nosso último encontro com dor de cabeça. Foi a primeira vez que o papo me deixou perturbado, com sequelas para o dia seguinte. Isso é bom ou ruim? Você não vai responder esta, eu sei, que você não é de responder. Nunca. Fico um pouco irritado, mas não leve a mal: não é pessoal, como quando eu achei que você era crente (em sonho).
Eu desconfio de você, você disse.
Quando você dá aquelas risadinhas (são sempre discretas), eu nunca sei do que você ri: se é de mim, da história que eu contei ou dos dois. Os personagens são folclóricos, eu mesmo rio deles - muitas vezes de nervoso. Outras vezes rio é para fingir que eles são desimportantes. Também me intriga quando você joga a cabeça para trás e me olha por baixo dos óculos. Nunca sei se 1) você me olha de cima, 2) tenta relaxar de uma dor súbita no pescoço, 3) discorda completamente do que acabei de dizer ou 4) está irritada porque eu falei mal do José Dirceu. Que você é crente eu não acredito, mas desconfio que você é petista de velha guarda.
Hoje você bocejou. Não um boceeeeejo, mas uma bocejadinha. Não é a primeira vez. Me sinto meio um chato, preciso confessar - ou coisa pior. Conto um pouco com a sua aprovação. E isso é ridículo. Quando você ri, eu também acho que você está me aprovando em sei lá o quê.
(Na sua antessala fica um rádio ligado no Jornal Nacional. Eu já achei que era uma voz na minha cabeça)
Você parece um pouco etérea também. Como se você flutuasse a poucos milímetros do chão em vez de caminhar (olha que loucura). Meio fantástico. Outro dia eu sonhei - acho que sonhei, mas pode ser uma fabulação - que eu estava aí na sua poltrona verde. Um leão dormia com a cabeça no meu colo. De repente, ele começava a falar e era em sânscrito que ele falava. Não me pergunte como eu sei que era sânscrito. Acordei.
Sua sala verde, a cova dos leões. Uuu.
M.