rio de janeiro, 21 de junho de 2012

Olha, Martha:

Eu acho meio bonito, ainda que constrangedor, esse interesse despudorado do velho pela gente do elevador. O velho ficou não só invisível, mas também encolheu, como prova a coluna que vai se dobrando, se dobrando. Ele só existe no cheiro de sabonete e na dor nas falanges. Eu gosto dessas coisas neles. Retrato de velho em preto e branco, você já prestou atenção? Parece uma escultura de pedra. O velho também é meio reacionário; se ele te olha, pode ter certeza que te julga com alguma ideia pré-concebida em 1932. A criança é só curiosa mesmo, não tem anos de amargura e preconceito - além da artrite, é claro.

Às vezes eu os odeio, vou confessar. Quando minha juventude e juntas saudáveis querem andar nas calçadas de Copacabana, por exemplo. A minha pressa se choca com a ausência de pressa - pressa para quê? - deles. Claro que há os velhos notáveis. Esta semana mesmo fui lá bater um papo com o Zuenir - e o homem parece ter 20 e poucos anos, Martha, só que com uma sabedoria anciã. Bonito de ver.

Isso dava um belo argumento de peça de teatro, à moda de Yasmina Reza (obrigado por ter me apresentado a moça, aliás). Um personagem está no elevador quando entra um velho encarquilhado. O velho começa a olhar, olhar, olhar. O protagonista devolve, mas o ancião não desvia nem diz nada. E o personagem começa um monólogo, incomodadíssimo que está com o silêncio daquela mirada. Fala de si, primeiro com bom humor, fazendo piada de si mesmo para se antecipar ao julgamento do senhor (como fazem os tímidos com vocação para o humor). Sob o peso do olhar, o sujeito vai se revelando e enlouquecendo, fala dos pais, traumas infantis, o casamento fracassado, o hábito de beber todos os dias, o tesão reprimido por anãs lésbicas albinas - sei lá. Confessa as fraquezas e as vilezas, grita, chora, esperneia, tem crises de riso. Deseja viver, mudar de vida, melhorar. Deseja morrer. No final, dá dois tapas na cara do velho e o mata estrangulado. O velho morre plácido, sem dizer nem a última palavra, dando os últimos tremores de um Parkinson em estado avançado.

O assassino sai do elevador como se nada houvesse acontecido. Tudo isso com ar de comédia, para a coisa não ficar muito baixo astral.

Beijo,

Maurício

P.S.: O velho tem que ser o Paulo José, um dos silêncios mais contundentes e expressivos da nossa dramaturgia. O protagonista pode ser a Fernanda Torres.

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