rio de janeiro, 18 de julho de 2012

Maurício,

A primeira coisa que você me disse ao ver o caderninho verde com o lápis igualmente diminuto foi: que lápis pequeno. 

Meses depois, no bar, quando você sacou o mesmo combo caderninho+lápis da mochila, a primeira coisa que eu disse foi: que lápis sem ponta. Ao que você respondeu: é sem ponta porque ele é pequeno e nenhum apontador consegue apontar. A partir daí, tivemos uma longa e infrutífera discussão sobre apontadores de lápis para os olhos, que têm vários diâmetros, e como eu daria um desses apontadores pra você conseguir apontar o lápis diminuto. Claro que eu nunca te dei um apontador — quem se lembra de dar um apontador de presente? Você provavelmente nem lembra que eu te prometi um apontador — quem promete um apontador de presente? 

Conto isso porque você só se lembrou do desenho da sua nádega esquerda, que eu não recordava ter feito. Sobre as outras anotações no caderninho verde atribuídas a mim: eu jamais disse em voz alta as palavras “niilistazinho de merda”. Assim como nunca proferi a expressão “porco chauvinista”, embora ache o clichê dela divertido. Nada contra chamar alguém de niilistazinho de merda ou de porco chauvinista, mas sabe aquelas expressões ditas por aí que, por algum motivo, a gente nunca diz? Então. Deve ter sido outra pessoa.

Hoje eu cheguei muito atrasada a um compromisso importante e fui repreendida com os olhos pela pessoa que me aguardava. Você também tem essa mania, não tem?, de chegar atrasado. Sei porque você já me deixou esperando várias vezes. E nós dois sempre mentimos um para o outro — tô chegando! — quando estamos apenas saindo de casa. Deveria existir uma palavra pra definir uma pessoa que mente o tempo todo com as pequenas coisas. Você, por exemplo, que mente sobre onde está, sobre se vai a tal lugar ou o que vai fazer hoje. Mas, se eu faço uma pergunta séria sobre um trauma de infância ou peço uma opinião importante, você não mente. Acho que isso se chama micromitomania. Você — e eu, em certos aspectos —  somos micromitômanos. Ou oligomitômanos, mas aí parece muito com oligofrênico e a gente não quer parecer burro.

Um beijo e até mais,

Laura