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<rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" version="2.0"><channel><atom:link rel="hub" href="http://tumblr.superfeedr.com/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"/><description>Cartas reais, irreais e surreais. Por Maurício Meireles</description><title>estas cartas</title><generator>Tumblr (3.0; @estascartas)</generator><link>http://estascartas.tumblr.com/</link><item><title>rio de janeiro, 18 de julho de 2012</title><description>&lt;p&gt;Maurício,&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A primeira coisa que você me disse ao ver o caderninho verde com o lápis igualmente diminuto foi: que lápis pequeno. &lt;/p&gt;


&lt;p&gt;Meses depois, no bar, quando você sacou o mesmo combo caderninho+lápis da mochila, a primeira coisa que eu disse foi: que lápis sem ponta. Ao que você respondeu: é sem ponta porque ele é pequeno e nenhum apontador consegue apontar. A partir daí, tivemos uma longa e infrutífera discussão sobre apontadores de lápis para os olhos, que têm vários diâmetros, e como eu daria um desses apontadores pra você conseguir apontar o lápis diminuto. Claro que eu nunca te dei um apontador &amp;#8212; quem se lembra de dar um apontador de presente? Você provavelmente nem lembra que eu te prometi um apontador &amp;#8212; quem promete um apontador de presente? &lt;/p&gt;


&lt;p&gt;Conto isso porque você só se lembrou do desenho da sua nádega esquerda, que eu não recordava ter feito. Sobre as outras anotações no caderninho verde atribuídas a mim: eu jamais disse em voz alta as palavras &amp;#8220;niilistazinho de merda&amp;#8221;. Assim como nunca proferi a expressão &amp;#8220;porco chauvinista&amp;#8221;, embora ache o clichê dela divertido. Nada contra chamar alguém de niilistazinho de merda ou de porco chauvinista, mas sabe aquelas expressões ditas por aí que, por algum motivo, a gente nunca diz? Então. Deve ter sido outra pessoa.&lt;/p&gt;


&lt;p&gt;Hoje eu cheguei muito atrasada a um compromisso importante e fui repreendida com os olhos pela pessoa que me aguardava. Você também tem essa mania, não tem?, de chegar atrasado. Sei porque você já me deixou esperando várias vezes. E nós dois sempre mentimos um para o outro &amp;#8212; tô chegando! &amp;#8212; quando estamos apenas saindo de casa. Deveria existir uma palavra pra definir uma pessoa que mente o tempo todo com as pequenas coisas. Você, por exemplo, que mente sobre onde está, sobre se vai a tal lugar ou o que vai fazer hoje. Mas, se eu faço uma pergunta séria sobre um trauma de infância ou peço uma opinião importante, você não mente. Acho que isso se chama micromitomania. Você &amp;#8212; e eu, em certos aspectos &amp;#8212;  somos micromitômanos. Ou oligomitômanos, mas aí parece muito com oligofrênico e a gente não quer parecer burro.&lt;/p&gt;


&lt;p&gt;Um beijo e até mais,&lt;/p&gt;


&lt;p&gt;Laura&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/27459918222</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/27459918222</guid><pubDate>Wed, 18 Jul 2012 00:07:00 -0400</pubDate></item><item><title>paraty, 8 de julho de 2012</title><description>&lt;p&gt;À Ana Cristina César:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje aqui tudo voltou a ficar vazio: as ruas, a tenda, os alambiques. E veio um frio, Ana, de fazer a gente bater o queixo (e eu que esperava um veranico em Trindade), sobretudo na beira do rio, onde os peixes escorregam da superfície da água (flop). Eles me fizeram pensar em você nua, ensaboada, passando pela sala, correndo pela sala nua, escorregando das mãos de sua mãe, ai, escapulindo das mãos do seu pai ensaboada, Ana; e mergulhando pela janela lá embaixo, na Tonelero, ensaboada, nua.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Claro que eu pensei nisso porque ficaram vazios as ruas, a tenda, os alambiques - um troço meio melancólico. Todo mundo já foi. A festa foi bonita aqui, você ia gostar. O Miguel ia te chamar para uma mesa (que eles chamam mesa, mas só há cadeiras - deveriam chamar de cadeiras literárias, por isso) e você ia ver que tudo aqui tem Drummond, até os guardanapos dos restaurantes. Você pode limpar a boca com o poeta, sujar o poeta com molho de tomate, cuspir a espinha do salmão na cara do poeta - uma indecência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E havia aquele cão circunspecto nas ruas de fora, Ana. Que corria, longe dos alambiques. Ele passou por uns gringos dizendo palavras que eram a sua cara: blue, jazzband, daydream, nowhere, elysées. Bonitas como as coisas da sua pasta rosa (nuas, mas meio ensaboadas), diferentes das coisas do meu caderno verde. Ana, você se lançou, a festa acabou, a gente ficou. E agora?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Vila-Matas, você sabia?, é obcecado por gente igualzinha a você. Ele foi gentil conosco, disse coisas bonitas que pareceram um sinal de terra à vista para muita gente. Dava para ver na cara deles. Sabe o que ele disse? &amp;#8220;Um dia descobri que Tabucchi era a sombra de Fernando Pessoa e decidi me tornar a sombra de Tabucchi, para ser a sombra de uma sombra de uma sombra&amp;#8221;. Espanhol endiabrado aquele. Isso tudo diante de um repórter do Recife que nos humilhou a todos, tendo lido absolutamente todos os livros do catalão, sendo uma espécie de Ph.D. caseiro em metaliteratura. As perguntas dele eram compridas como as de ninguém.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esqueci o que ia dizendo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ah sim: o Vila-Matas ia gostar de você. O vento no seu rosto, seu rosto na calçada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Y.&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/27065544944</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/27065544944</guid><pubDate>Thu, 12 Jul 2012 15:02:03 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 28 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;Monike,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje pensei muito em Angkor Wat. O templo foi construído, li em algum lugar, por um rei que atacou outro rei quando este passeava em seu elefante. Um assassino usurpador, como naqueles dramalhões medievais. Mas eu mataria um rei, digo, vale a pena, não?, matar um rei para fazer algo assim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Toquei no assunto para fazer uma pergunta: você ainda anima aquela viagem ao sudeste asiático? Podemos juntar uma trupe, enfrentar o calor e a malária em Hanói e Dharamsala. Olha, Monike, fica tranquila: vou vigiar para você não ficar bêbada em Bangkok e trocar de sexo por acidente. Esse seu fraco para o álcool não é mole. Mas é bom, porque a bebida ameniza a diferença entre pessoas - quem é de outro século parece contemporâneo e vice-versa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De todo modo, vai ser selvagem, úmido e místico, todo mundo vai curtir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acho ótimo que você curta o turismo heterodoxo. Como eu e alguns de nós. Não é narcisismo - &amp;#8220;Te acho legal, porque você é igualzinha a mim.&amp;#8221; Em outro país, suspeito que minha mania obsessiva de olhar onde você pisa vai se acentuar. Não sei bem por que, mas não confio na sua capacidade de escolher o próprio caminho. Por isso os momentos infinitos de Monike, olha a pedra, o poste, aquele buraco, porra, aquele buraco enorme. Isso quando não te puxo pelo cotovelo porque previ uma tragédia pedestre no meio da calçada. É.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Você precisa prestar mais atenção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para a viagem, você tem que dar um jeito pelo menos nesse seu jeito notívago, senão ninguém aguenta, imagina, atravessar madrugadas, dormir até tarde ou simplesmente não dormir. Mas seu jeito de olhar é bem vindo. Vamos rir como você usar palavras como &amp;#8220;face&amp;#8221; para falar do rosto das pessoas. E você vai querer subir no elefante, estou certo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Beijo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/26115822083</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/26115822083</guid><pubDate>Thu, 28 Jun 2012 22:49:26 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 24 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;Prezado Kremlin,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Venho por meio desta manifestar meu interesse em comprar a múmia do Vladimir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Soube por amigos em comum que vocês querem vendê-lo. É caro manter o velho líder preservado, eu imagino. Me disseram que o Fidel Castro quis comprá-lo. Não vendam, por dois motivos: o Fidel está velho, ele mesmo virou uma múmia. Há o risco de confundirem os dois e botarem o russo para discursar. E Cuba não deve ter ar condicionado. O clima lá, convenhamos, não é favorável ao Vladimir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aqui em casa tem um quarto vazio. É climatizado e grande o suficiente para abrigar o homem e celebrar a Mãe Rússia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho vários planos já. Vou organizar sessões de O Encouraçado Potenkim com caipivodka (a cachaça está proibida). Em certa altura da noite, vou anunciar às visitas: &amp;#8220;Vamos ver o Vladimir.&amp;#8221; As mulheres vão dar gritinhos, pedir todo poder aos soviets, cantar o hino da Internacional. Tenho amigas que não podem ver um socialista - se for alto e tiver barba, pior ainda. Ter Lênin na sua casa, tomar cafezinho ao redor do seu corpo enquanto assistimos Avenida Brasil na TV, deve ser uma sensação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Posso colocar o projeto em um edital da Petrobras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vocês fazem de 12 vezes no American Express?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Atenciosamente,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;M.&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/25778040608</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/25778040608</guid><pubDate>Sun, 24 Jun 2012 08:31:00 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 24 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;Caros pombos da Cinelândia,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vocês já notaram como alguns de vocês são meio anabolizados?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois é. Até hoje não sei se é uma variação genética ou alguma doença tenebrosa da qual vocês são portadores; mas sempre penso no pior. De todo modo, atravesso a rua quando vejo um pombo grande, inchado por debaixo das penas, cinzento ou malhado, que anda meio se sacudindo. Horror pior só quando vejo um de vocês morto sem ser por atropelamento, de alguma causa natural.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parece que a doença e a morte estão invadindo a nossa vida. E logo no meio do expediente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Neste ponto vocês parecem a barata, que é o esgoto invadindo a nossa casa)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aquele som da garganta de vocês, por favor não o façam. Parece um mau agouro. Até o nome é feio: arrolho. Vou dizer de novo para ver se vocês entendem: arrolho. Por favor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aliás, quero agradecer à França, que nos deu a arquitetura, a baguete, a guilhotina, o Flaubert - e os pombos. Foi um prefeito do século passado que trouxe seus antepassados, engaiolados, em um navio. Ele achava que vocês emprestavam um ar parisiense à capital, vejam que merda. Também vieram os pardais, bem mais simpáticos, mas eu nunca vi um.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ponto aqui é simples: vocês não pertencem a este lugar. Poderíamos aceitar vocês, como amamos os libaneses da Rua da Alfândega, que agora são chineses. Mas vocês não sabem fazer esfirra ou pastel com caldo de cana, então sinto muito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aproveitem o inverno e morram de frio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem mais,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/25776862131</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/25776862131</guid><pubDate>Sun, 24 Jun 2012 07:47:00 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 21 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;Olha, Martha:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu acho meio bonito, ainda que constrangedor, esse interesse despudorado do velho pela gente do elevador. O velho ficou não só invisível, mas também encolheu, como prova a coluna que vai se dobrando, se dobrando. Ele só existe no cheiro de sabonete e na dor nas falanges. Eu gosto dessas coisas neles. Retrato de velho em preto e branco, você já prestou atenção? Parece uma escultura de pedra. O velho também é meio reacionário; se ele te olha, pode ter certeza que te julga com alguma ideia pré-concebida em 1932. A criança é só curiosa mesmo, não tem anos de amargura e preconceito - além da artrite, é claro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Às vezes eu os odeio, vou confessar. Quando minha juventude e juntas saudáveis querem andar nas calçadas de Copacabana, por exemplo. A minha pressa se choca com a ausência de pressa - pressa para quê? - deles. Claro que há os velhos notáveis. Esta semana mesmo fui lá bater um papo com o Zuenir - e o homem parece ter 20 e poucos anos, Martha, só que com uma sabedoria anciã. Bonito de ver.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Isso dava um belo argumento de peça de teatro, à moda de Yasmina Reza (obrigado por ter me apresentado a moça, aliás). Um personagem está no elevador quando entra um velho encarquilhado. O velho começa a olhar, olhar, olhar. O protagonista devolve, mas o ancião não desvia nem diz nada. E o personagem começa um monólogo, incomodadíssimo que está com o silêncio daquela &lt;em&gt;mirada&lt;/em&gt;. Fala de si, primeiro com bom humor, fazendo piada de si mesmo para se antecipar ao julgamento do senhor (como fazem os tímidos com vocação para o humor). Sob o peso do olhar, o sujeito vai se revelando e enlouquecendo, fala dos pais, traumas infantis, o casamento fracassado, o hábito de beber todos os dias, o tesão reprimido por anãs lésbicas albinas - sei lá. Confessa as fraquezas e as vilezas, grita, chora, esperneia, tem crises de riso. Deseja viver, mudar de vida, melhorar. Deseja morrer. No final, dá dois tapas na cara do velho e o mata estrangulado. O velho morre plácido, sem dizer nem a última palavra, dando os últimos tremores de um Parkinson em estado avançado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O assassino sai do elevador como se nada houvesse acontecido. Tudo isso com ar de comédia, para a coisa não ficar muito baixo astral.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Beijo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;P.S.: O velho &lt;em&gt;tem que&lt;/em&gt; ser o Paulo José, um dos silêncios mais contundentes e expressivos da nossa dramaturgia. O protagonista pode ser a Fernanda Torres.&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/25610239884</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/25610239884</guid><pubDate>Thu, 21 Jun 2012 20:16:00 -0400</pubDate><category>de m para m</category></item><item><title>rio de janeiro, 18 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;E.,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Saí do nosso último encontro com dor de cabeça. Foi a primeira vez que o papo me deixou perturbado, com sequelas para o dia seguinte. Isso é bom ou ruim? Você não vai responder esta, eu sei, que você não é de responder. Nunca. Fico um pouco irritado, mas não leve a mal: não é pessoal, como quando eu achei que você era crente (em sonho).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu desconfio de você, você disse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando você dá aquelas risadinhas (são sempre discretas), eu nunca sei do que você ri: se é de mim, da história que eu contei ou dos dois. Os personagens são folclóricos, eu mesmo rio deles - muitas vezes de nervoso. Outras vezes rio é para fingir que eles são desimportantes. Também me intriga quando você joga a cabeça para trás e me olha por baixo dos óculos. Nunca sei se 1) você me olha de cima, 2) tenta relaxar de uma dor súbita no pescoço, 3) discorda completamente do que acabei de dizer ou 4) está irritada porque eu falei mal do José Dirceu. Que você é crente eu não acredito, mas desconfio que você é petista de velha guarda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje você bocejou. Não um boceeeeejo, mas uma bocejadinha. Não é a primeira vez. Me sinto meio um chato, preciso confessar - ou coisa pior. Conto um pouco com a sua aprovação. E isso é ridículo. Quando você ri, eu também acho que você está me aprovando em sei lá o quê.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Na sua antessala fica um rádio ligado no Jornal Nacional. Eu já achei que era uma voz na minha cabeça)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Você parece um pouco etérea também. Como se você flutuasse a poucos milímetros do chão em vez de caminhar (olha que loucura). Meio fantástico. Outro dia eu sonhei - acho que sonhei, mas pode ser uma fabulação - que eu estava aí na sua poltrona verde. Um leão dormia com a cabeça no meu colo. De repente, ele começava a falar e era em sânscrito que ele falava. Não me pergunte como eu sei que era sânscrito. Acordei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sua sala verde, a cova dos leões. Uuu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;M.&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/25483426370</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/25483426370</guid><pubDate>Tue, 19 Jun 2012 23:52:00 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 19 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;Oi.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu tinha te prometido um trecho preferido de O Som e a Fúria, do velho William. Sim, sim: acabei finalmente. Por isso resolvi escrever esta, para contar. Ninguém atravessa um rubicão daqueles para guardar segredo. Aquele amontoado de fluxos de consciência - o Faulkner tenta reproduzir o pensamento da gente - parecem intransponíveis. Mas o certo é chegar perto de um leão literário desses como um crente se aproxima do Velho Testamento - com fé. E um pouco de perseverança, claro. A fera não fica dócil até que se chega ao finalzinho. Aí então você percebe o que ele criou e vê que era bom.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas escolhi dois trechos. Ei-los:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;&amp;#8216;Eu tenho a lembrança e o sangue do Cordeiro!&amp;#8217; Andava com passos pesados e uniformes de um lado para o outro, sob o papel retorcido e o sino de natal, recurvo, as mãos entrelaçadas nas costas. Era como uma pedra, pequena e gasta, dominada pelas ondas sucessivas de sua voz. Com o corpo parecia alimentar a voz que, feito um súcubo, cravara nele seus dentes.&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Abraço,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/25466051920</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/25466051920</guid><pubDate>Tue, 19 Jun 2012 19:28:55 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 18 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;Maurício, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em sua defesa, preciso contar que&amp;#8230;adoro a &amp;#8220;fossa rasteira&amp;#8221;. O exu de Goiás me tomou de assalto há muitos anos. Mais precisamente, em 1990 (você, se não me engano, nem era nascido&amp;#8230;), quando Chitãozinho e Xororó inundaram o país com Nuvem de Lágrimas. Um dueto - trio? - com Fafá de Belém, o que conferia uma dramaticidade ainda maior à canção. Ninguém me segurava. No chuveiro, na sala de jantar ou no ambiente de trabalho, eu sofria na letra da música. AAAAH/JEITO TRISTE DE TER VOCÊ/LONGE DOS OLHOS E DENTRO DO MEU CORAÇÃAAAAO. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tempos difíceis. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas o elevador. Sim, o elevador faz parte do assunto de minha carta de hoje. Na última sexta-feira, descia do oitavo andar do meu prédio, a caminho do trabalho. Parou no sexto e uma senhora de uns 80 anos entrou com uma acompanhante. Dei um simpático bom dia para as duas e tornei a olhar para frente. Mas a vizinha da terceira idade continuou me olhando, como, perifericamente, pude perceber. Olhei para ela. Não desviou. Dei um sorrisinho. Ela não riu e continuou a me encarar. Para minha sorte, chegamos à garagem e nos separamos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício, por que os velhos olhar como se não houvesse amanhã? Por que olham como se fossem invisíveis? Por que perdem os filtros desta maneira? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu tive uma tia-avó assim. Ela olhava para todos na rua. Eu dava uns toques. Ela não parava - e ainda negava que estivesse olhando. Se a pessoa fosse conhecida, além de olhar muito, ela começava a perguntar. Tudo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas hoje quero me deter na questão do olhar. Certamente eles olham porque perderam o filtro - viraram crianças novamente. Mas por que não nos sentimos tão mal quando as crianças nos olham? Ao contrário, brincamos com elas, fazemos caretas&amp;#8230;perguntamos! Com velho, só o desconforto. O horror, talvez, de saber que é pra lá que vamos? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra suposição: ninguém liga para os velhos. Como os garis (os que não sabem sambar, claro) e as moças que tomam conta de banheiros, eles são, para a maioria das pessoas, invisíveis. Então, quem sabe passaram a acreditar que não vistos? Acreditam que podem olhar, olhar, olhar&amp;#8230; e ninguém vai perceber. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Velhos não devem nada a ninguém. O que deve ser muito bom. Uma pena que venha acompanhado de rugas, bunda caída e esclerose, né?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Martha&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/25465390132</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/25465390132</guid><pubDate>Tue, 19 Jun 2012 19:18:49 -0400</pubDate><category>de m para m</category></item><item><title>rio de janeiro, 16 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;&lt;a href="http://estascartas.tumblr.com/post/24477568568/rio-de-janeiro-5-de-junho-de-2012" target="_blank"&gt;resposta a esta carta&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Marthíssima,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acho que entendi: São &lt;em&gt;Conrrado&lt;/em&gt; não é um erro, mas um ato de desobediência civil. Faz sentido. A flor do lácio é cretina mesmo, ela merece.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas quero falar de outro tema: agora eu dei para cantar os maiores hits de Zezé di Camargo &amp;amp; Luciano. Tudo bem, quando era na intimidade do lar. Mesmo quando era gritaria de vizinho no chuveiro (o vizinho escandaloso sendo eu mesmo).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Só que algo mudou. De repente, dei para me sentir um filho de Francisco - assim do nada. É um impulso meio irresistível, que surge quando estou só no elevador. Lá mesmo no prédio da redação já me aconteceu. Trancado na caixa de aço, um exu sertanejo chega até mim. Aí eu começo: meeentes tão bem, que até parece verdade. E emendo, a plenos pulmões: ENTÃO PARE! LIBERTA O MEU CORAÇÃO!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O bagulho é brabo, querida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu estava mantendo em segredo. Tipo o sujeito que deseja que a namorada imite um javali tuberculoso ali na hora, sei lá. Mas semana passada aconteceu o pior: fui flagrado. Estava tão comovido com minha interpretação de &amp;#8220;PRECISO! PRECISO DE VOCÊ AAQUI!&amp;#8221;, no elevador do hospital, que nem vi o elevador parar, a porta abrir - e entrar um médico. Suspeito que minha têmpora estava saltada, tomado que eu estava pela força da canção (!). O doutor ficou rindo com um sorrisinho irônico. O horror, o horror.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para piorar, esse exu de Goiás não gosta das coisas singelas da dupla. &amp;#8220;É o amor&amp;#8221;, &amp;#8220;Tristeza do Jeca&amp;#8221;, &amp;#8220;Beijinho doce&amp;#8221; - pode esquecer. Ele ama é a fossa rasteira, que a gente precisa botar força no diafragma para cantar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Daqui a pouco vai me dar um calo na garganta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Só muito ebó.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/25209451673</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/25209451673</guid><pubDate>Sat, 16 Jun 2012 01:17:00 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 5 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;&lt;a href="http://estascartas.tumblr.com/post/24350569480/rio-de-janeiro-6-de-junho-de-2012-de-m-para-m" target="_blank"&gt;resposta a esta carta&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Caro Maurício,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Você me diz que, na Bolívia, os tomates são mais tenros e vermelhos - e isso me deixa muito desconfortável. Não por inveja dos hermanos cocaineiros. Mas pela palavra &amp;#8220;tenro&amp;#8221;. Me incomodam essas palavras: &amp;#8220;tenro&amp;#8221;, &amp;#8220;melro&amp;#8221;, &amp;#8220;guelra&amp;#8221;, &amp;#8220;honrado&amp;#8221;, &amp;#8220;enredo&amp;#8221;. Esse &amp;#8220;r&amp;#8221; que se faz de brando, mas é forte. Ou seria o contrário? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma celebridade do Twitter, com milhões de seguidores, sempre escreve que está engarrafado em São &amp;#8220;Conrrado&amp;#8221;. Que burro, sempre pensei - invejando alguém tão idiota com tanto seguidores, certamente. Depois tive pena. E, recentemente, passei a ter orgulho do cara, como se aquele &amp;#8220;r&amp;#8221; dobrado fosse uma bandeira, um manifesto contra as pegadinhas da nossa língua.  &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Crianças em fase de alfabetização sofrem muito. Minha filha sempre escrevia &amp;#8220;tumati&amp;#8221;. Eu a corrigia. &amp;#8220;Ué, mãe, mas a gente não fala assim?&amp;#8221;. Tadinha. Muito cedo esses pequenos aprendem que nem tudo é o que parece. Exatamente como os tomates, que são tão simples, redondos, monocromáticos, mas na verdade são de extrema complexidade. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo não é o que parece, já disse o poeta. E sempre há uma pedra do meio do caminho. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Beijos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Martha&lt;/p&gt;
&lt;div&gt;&lt;a href="http://estascartas.tumblr.com/post/25209451673/rio-de-janeiro-16-de-junho-de-2012" target="_blank"&gt;Leia aqui a resposta a esta carta&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/24477568568</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/24477568568</guid><pubDate>Tue, 05 Jun 2012 13:01:00 -0400</pubDate><category>de m para m</category></item><item><title>rio de janeiro, 3 de junho de 2012</title><description>&lt;p&gt;Laura,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu não me lembrava que você já tinha desenhado a minha bunda. Você não deve se lembrar. Foi naquele caderninho verde que você trouxe de outro país e veio com um lápis igualmente diminuto, que por isso nunca pôde ser apontado (nenhum apontador tem a embocadura que ele requer). Você me deu para eu anotar minhas ideias - mas a maioria é ruim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele andou perdido, só fui encontrá-lo esta semana. Abri no ônibus na página exata e ri alto. É assim: tem uma bunda desenhada, com algo escrito na nádega esquerda. Uma seta puxa para umas aspas que dizem: &amp;#8220;Escrever no meu caderno verde é como escrever na minha nádega esquerda, de tão íntimo.&amp;#8221; Mais abaixo, outra seta puxa para uma anotação, feita por você: &amp;#8220;Minha nádega desenhada pela Laura.&amp;#8221; Não tem data. Também não me lembro de ter dito isso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estávamos sóbrios?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pergunto porque na página atrás da bunda você anotou ainda: I&amp;#8217;ve got a soul aqui nesta mesa de bar. É a sua caligrafia, Laura. De qualquer forma, parece claro que eu me senti meio devassado com essa intrusão. O caderno tem as ideias e anotações as mais idiotas. Na página atrás da bunda, está uma definição de Oswald de Andrade para Benito Mussolini. É bem sucinta: macarronada com sangue.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda perto, notas minhas: &amp;#8220;Disse que eu era um niilistazinho de merda.&amp;#8221; Você me acha um niilistazinho de merda? Acho possível. Especialmente se foi naquela época que você me odiou: eu tinha dito que você fazia gestos estranhos enquanto falava. E que era meio estrábica. Você achou humilhante, me senti um lixo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou folheando o caderno enquanto te escrevo. Achei algo que não lembro para quem era, mas pode bem ser você, olha:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;#8220;A mente dela era alada. Por isso batia o pé no canto das portas e perdia objetos nos próprios bolsos.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;M.&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/24376892660</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/24376892660</guid><pubDate>Sun, 03 Jun 2012 22:11:44 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 6 de junho de 2012 (de M. para M.)</title><description>&lt;p&gt;&lt;a href="http://estascartas.tumblr.com/post/24166697250/demparam" target="_blank"&gt;reposta a esta carta&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Martha, querida,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Você desculpe a demora desta. Andei ocupado com aquele problema de saúde na família, você sabe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca confio no fabricante, e essa desconfiança antecede o rato do baconzitos (aquele). É sempre uma lata de alguma cerveja vagabunda que vem pela metade ou sorvete chicabon que vem azedo. Já me aconteceu algumas vezes. O fabricante me odeia e arma contra mim em segredo - é por isso que um defeito desses só acontece nos fins de semana, quando mais quero a cerveja ou o chicabon. &lt;em&gt;L&amp;#8217;énemie c&amp;#8217;est la bourgeosie&lt;/em&gt;, ouvi em algum filme francês: a burguesia é nossa inimiga. Por isso, meu ceticismo se estende ao pão light e ao biscoito sem gordura trans. Só confio no arroz integral - e mesmo assim&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Também tive uma angústia existencial quando li a do tomate. Interessante isso. Sabe que na Bolívia eles são mais tenros e mais vermelhos? Experimentei alguns na casa de umas índias, todas com os dentes negros. Tento até hoje não pensar na fauna que vivia naquelas bocas pré-colombianas. Elas me adoravam, por causa dos papos longos que batíamos na cozinha. Eu, que não falo uma palavra de espanhol. Até me estalavam um beijo na bochecha, e acho que foram as vezes que estive mais perto da cárie.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas estou mudando de assunto. É que eu não sei se concordo com essa do tomate. Li a reportagem, ela dizia que o legume tinha mais genes que nós. Sei lá, pensei em Deus escrevendo nosso código genético. E, de repente, o tomate me pareceu um romance chato, prolixo, de linguagem derramada e sintaxe confusa. Coisa de adolescente com pretensões literárias mesmo. Já nós somos concisos e minimalistas, uma coisa simplificada - um conto do Dalton Trevisan.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda bem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Axé,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;P.S.: Vi só agora que a tradução no primeiro parágrafo fez esta aqui parecer uma novela da Glória Perez.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://estascartas.tumblr.com/post/24477568568/rio-de-janeiro-5-de-junho-de-2012" target="_blank"&gt;Leia a resposta a esta carta aqui&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/24350569480</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/24350569480</guid><pubDate>Sun, 03 Jun 2012 15:49:00 -0400</pubDate><category>de m para m</category></item><item><title>rio de janeiro, 31 de maio de 2012 (de M. para M.)</title><description>&lt;p&gt;&lt;div&gt;(De M. para M. são cartas trocadas entre &lt;a href="http://twitter.com/mmeireles" target="_blank"&gt;mim &lt;/a&gt;e a amiga &lt;a href="http://twitter.com/MarthaMendonc" target="_blank"&gt;Martha Mendonça&lt;/a&gt;)&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Maurício,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Esse mundo, diria o filósofo, é muito louco. Acordei cedo - não que isso seja raro - e, enquanto esperava as crianças acabarem de se arrumar para a escola, peguei a caixinha de ameixas pretas secas na despensa. Compro sempre essas ameixas como compensação gastrointestinal para comer maçãs, que adoro - e espero que você tenha compreendido.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Escolho, preferencialmente, as sem caroço, para facilitar. Mas vira e mexe trinco os dentes num caroço clandestino. Dói. Não é um jeito de muito bom de começar os dias, morder com força um caroço às seis da manhã, na inocência de que é possível confiar nos fabricantes.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Mas a caixinha que peguei de manhã era, excepcionalmente, de ameixas COM caroço. Estas, pensei, no supermercado, nunca vão me enganar. Saberei de verdade o que estou comendo. Eis que abri a caixinha hoje, junto com um pires, para colocar os caroços. Peguei a primeira, pensando que, com caroço, são mais macias e hidratadas - mais uma vantagem. Levei à boca.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Mas não havia caroço algum.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Pensei que era só a primeira, ovelha negra (e enrugada) que havia se livrado do caroço. Não. Nenhuma tinha caroço. Comi mais de dez, sem vontade, só pra saber se realmente não havia caroço em nenhuma. Nem vestígio.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Isso tudo me deu uma certa insegurança. Que aumentou quando peguei o jornal, para me distrair desses pensamentos nebulosos, e me deparei com a notícia, em primeira página: &amp;#8220;Tomate é mais complexo que o ser humano&amp;#8221;.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Saí de casa me sentindo um lixo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Até mais,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Martha&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a href="http://estascartas.tumblr.com/post/24350569480/rio-de-janeiro-6-de-junho-de-2012-de-m-para-m" target="_blank"&gt;Lei aqui a resposta a esta carta&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/24166697250</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/24166697250</guid><pubDate>Thu, 31 May 2012 21:25:00 -0400</pubDate><category>de m para m</category></item><item><title>rio de janeiro, 31 de maio de 2012</title><description>&lt;p&gt;Claudia, cara,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Você já operou o fogão desta casa com mais destreza. Quibe de forno sem carne? Achei mesmo que eu ia morrer comendo aquela coisa encorpada de trigo somente. Sorte a minha apreciar o tempero árabe que você conhece - as especiarias (não sei quais) que você trouxe de Nova Iguaçu merecem mesmo um prêmio. Mas a carne fez falta. Da próxima vez, também vamos evitar o requeijão light, que tal? Enche o bicho de catupiry e estamos combinados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Beijo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/24111877433</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/24111877433</guid><pubDate>Thu, 31 May 2012 00:17:00 -0400</pubDate></item><item><title>paris, 6 de setembro de 1925 (de William Faulkner para a sra. M.C. Falkner, sua mãe)</title><description>&lt;p&gt;&amp;#8220;Acabo de escrever uma coisa tão bela que estou prestes a explodir - duas mil palavras sobre os jardins do Luxemburgo e a morte. Tem um enredo ralo, sobre uma jovem, e é poesia mas escrita em forma de prosa. Trabalhei nela dois dias inteiros e cada palavra é perfeita. Mal dormi durante duas noites, pensando no texto, comparando palavras, aceitando-as e rejeitando-as, depois mudando de novo. Mas agora ele está perfeito - uma joia. Vou guardá-lo por uma semana, depois mostrá-lo a alguém para pedir uma opinião. Então imagino que amanhã vou acordar me sentindo doente. Reação. Mas vale a pena, ter feito uma coisa como essa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho mais de 20 mil palavras em meu romance, e escrevi um poema tão moderno que eu mesmo não sei o que ele quer dizer.&amp;#8221;&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/24110906390</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/24110906390</guid><pubDate>Wed, 30 May 2012 23:58:47 -0400</pubDate></item><item><title>paris, 18 de junho de 1949 (de Paulo Mendes Campos para Otto Lara Resende)</title><description>&lt;p&gt;&amp;#8220;É isso mesmo, Lara. Mil vezes desculpa pelo atraso desta. Foi por simples deferência. Não queria mandar para você uma cartinha ou cartão-postal, queria escrever longo, explicado e amigo. Há um mês exatamente que cheguei a Paris, parece que estou aqui há muitos anos, contudo, o tempo passou voando, não houve tempo, houve Paris. Há mais de 20 dias, me lembro, eu já estava na meia página de uma carta para V., escrita com lazeres vesperais, e não é que me entra aqui no quarto o Paulo Prates, tive que fazer o anfitrião, oferecendo ao intruso meu Calvados, meu tempo, minha conversa.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(trecho - publicado na edição 9 da revista Serrote)&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/23838711093</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/23838711093</guid><pubDate>Sat, 26 May 2012 23:07:00 -0400</pubDate></item><item><title>rio de janeiro, 26 de maio de 2012</title><description>&lt;p&gt;Querida insulana,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu não sabia que as baleias respiravam. Isso meu deu um ânimo para ir te visitar aí na Argentina nas minhas próximas &lt;em&gt;vacaciones&lt;/em&gt;. Descobri ao ler um guia - aquele que inclui o Uruguai, como se fosse um apêndice do seu novo país. Acampa-se em um dos parques da Patagônia só por isso: à noite muita gente ouve o canto e a respiração delas. Sempre achei que o canto da baleia tinha um ar tão terrível. Várias vezes imaginei uma cena de filme de terror: o personagem chega em casa numa noite de chuva e encontra um envelope com uma fita. Entra, nem liga a luz e coloca a fita no aparelho de som - lá fora chove mais forte, com trovoadas. Das caixas de som sai um coro de baleias, cantado em águas frias e escuras e profundas de algum oceano no sul do hemisfério sul. Um terror. Em algum momento esse personagem seria morto por um psicopata (a fita era um sinal). Não cheguei a pensar no método que o assassino usaria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora o canto perdeu o elã para mim. Imagina o que é ouvir um animal formidável desses, um milagre da evolução, carregando suas toneladas - e respirando. É de arrepiar. Já li em algum lugar que, acho que entre os hebreus, o homem foi criado pela respiração de Deus, que soprou uma alma para dentro do barro - daí se dizer que a vida é um sopro. Por essas e outras tenho medo que a Patagônia seja bonita de um jeito opressivo. Outro problema vai ser a minha completa falta de perícia para montar uma barraca de camping. Você sabe bem que eu sou inapto para a vida selvagem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas imagina só: o fôlego de uma baleia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Saudades do tamanho da Ilha do Governador,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maurício&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/23837146850</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/23837146850</guid><pubDate>Sat, 26 May 2012 22:41:00 -0400</pubDate></item><item><title>estas cartas</title><description>&lt;p&gt;Caríssimos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;este blog tem uma ideia que não sei se vai funcionar: escrever cartas para pessoas - reais ou fictícias. Talvez não dê certo (sou o rei da procrastinação e da preguiça). Talvez dê. E isso nós vamos ver ao longo do tempo, neste &lt;em&gt;work in progress.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na maioria das vezes eu não vou ter assunto, é verdade. Prometo não transformar essa falta em assunto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não sei onde isso vai dar, se isso vai dar em algum lugar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um abraço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(queria um pen friend)&lt;/p&gt;</description><link>http://estascartas.tumblr.com/post/23798451423</link><guid>http://estascartas.tumblr.com/post/23798451423</guid><pubDate>Sat, 26 May 2012 11:11:00 -0400</pubDate></item></channel></rss>
